Setor público precisa rever processos antes de adotar IA, conclui estudo da Deloitte (Colombia)

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O levantamento indica que a atual transformação tecnológica vai além de uma nova etapa de digitalização e exige mudanças na própria maneira como governos organizam suas estruturas e atendem a população. “Os governos estão passando por uma reformulação de seu modelo operacional e repensando a forma como entregam serviços públicos”, afirmou Alex Borges, sócio-líder de Government & Public Services na Deloitte. “Não estamos mais falando de um novo ciclo de digitalização, mas sim de um período transformador em que os processos precisam ser redesenhados para se adequarem a um ambiente em constante aceleração tecnológica.” Segundo o executivo, incorporar ferramentas avançadas a estruturas antigas não é suficiente para produzir resultados duradouros. O potencial da tecnologia depende também da simplificação de regras, da reorganização dos fluxos em torno de objetivos concretos e da criação de estruturas de governança capazes de ampliar seu uso de maneira responsável. Borges atua há cerca de 25 anos na Deloitte e também lidera as práticas de Riscos Estratégicos e Regulatórios da consultoria, área responsável por análises relacionadas, entre outros temas, à adaptação de empresas multinacionais às normas brasileiras.

Entre as tendências identificadas pelo Government Trends 2026 está a transformação dos modelos operacionais da administração pública. Na avaliação da Deloitte,



estruturas tradicionalmente rígidas terão de incorporar maior flexibilidade para acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas. Nesse cenário, a liderança em tecnologia também deixa de exercer uma função predominantemente operacional e passa a ocupar uma posição estratégica.

A tarefa envolve integrar ferramentas digitais, equipes e processos para que os investimentos tecnológicos estejam relacionados aos resultados esperados dos serviços públicos. A mudança também passa pelo uso dos dados acumulados ao longo dos últimos ciclos de digitalização. Em vez de simplesmente converter procedimentos analógicos para plataformas digitais, governos passam a ter condições de utilizar essas informações para redesenhar políticas, antecipar necessidades e avaliar resultados. “O que todas essas tendências e iniciativas têm em comum é a abordagem integrada, que unifica padrões de dados, mensura resultados e abre espaço para uma colaboração focada em resultados claros e definidos.

Se nos anos anteriores a modernização digital era imperativa, agora colhemos os frutos dessa digitalização, usando os dados coletados para abordagens mais eficientes dos processos”, avaliou Borges. A transformação dos serviços públicos também pode ampliar o espaço para a colaboração com empresas privadas. Embora as parcerias público-privadas sejam tradicionalmente associadas no Brasil a grandes projetos de infraestrutura, como rodovias, portos e ferrovias, o estudo aponta possibilidades de cooperação em outras áreas da administração.

Uma delas está na revisão dos processos de suprimentos e compras públicas. A adoção de padrões digitais e procedimentos mais estruturados pode simplificar contratações, reduzir prazos e ampliar o acesso de fornecedores às oportunidades abertas pelo poder público. A aproximação com práticas desenvolvidas no setor privado não significa simplesmente reproduzir modelos empresariais dentro do Estado.

A proposta apresentada no estudo é utilizar experiências externas para reorganizar processos e melhorar a capacidade dos governos de entregar valor à população. IA nas decisões É depois dessa reorganização, segundo a Deloitte, que a inteligência artificial pode assumir papel mais relevante. Investimentos realizados nos últimos anos em identidade digital, integração de dados e plataformas compartilhadas criaram uma infraestrutura que permite avançar para serviços públicos mais personalizados e proativos.

A IA pode ser utilizada, por exemplo,



para analisar grandes volumes de informações e auxiliar governos a antecipar demandas e riscos antes da alocação de recursos. Dados provenientes de registros administrativos, sensores, satélites e plataformas digitais podem ser combinados para apoiar decisões e coordenar ações entre diferentes áreas da administração. Esse movimento representa uma transição de modelos predominantemente reativos para sistemas capazes de utilizar análises preditivas.

Em vez de agir somente depois que determinada demanda surge, órgãos públicos podem identificar padrões e antecipar situações que exigirão intervenção. O avanço, porém, depende da forma como a tecnologia será incorporada ao trabalho dos servidores. O estudo sustenta que o maior potencial da IA está na complementaridade entre sistemas tecnológicos e capacidades humanas, e não simplesmente na substituição de pessoas.

Nesse modelo, ferramentas de inteligência artificial podem assumir atividades intensivas em análise de dados e coordenação de informações, enquanto profissionais concentram esforços em decisões complexas, supervisão e competências como criatividade e empatia. “A tecnologia é um habilitador, mas governos que apenas adicionam novas ferramentas sobre processos antigos podem não capturar todo o valor da transformação. O aprendizado deve ser contínuo. O trabalho no setor público vai cada vez mais valorizar capacidades humanas que combinem pensamento sistêmico e legitimidade, entregando um resultado confiável, riguroso e personalizado às demandas do público”, acrescentou Borges.

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